
(A dança, de Henry Matisse)
(mais um texto do fundo do baú: 2007 )
Nova Iorque, 17 de novembro de 2018.
Oi,
hoje acordei com saudade do amanhã que não vai existir. O que faremos do veleiro que nos levaria além das obrigações? Que sentido daremos aos dias estendidos, sem o nosso horizonte caiçara?
Hoje acordei assustada porque lembrei que não precisaremos mais correr estradas, ansiosos por um beijo, às duas da manhã. Já não seremos reféns da madrugada, muito menos do tráfego aéreo. Infelizmente seremos livres: haverá outras noites, outros cansaços, outras motivações.
Hoje acordei preocupada com os nossos netos, perdidos no passado, relembrando os nossos causos, na Praça da Matriz. Quem varrerá a poeira, e comentará a reforma da igreja? Nossa casa sem número ficará abandonada, numa ruela qualquer, sem direito ao amor e ao futuro. E apesar disso, a vida seguirá. Os carteiros chegarão e lembrarão, todos os dias, que a nossa casa não é real.
Os amigos não conhecerão a nossa livraria, não experimentarão o meu café. Você não terá mais o meu corpo para desenhar. Onde serão as suas exposições? Me diga o que fazer para preencher o sábado chuvoso, com você numa cidade e eu em outra.
Hoje acordei aflita sem os seus pés embolados nos meus. Quem entenderá que eles falam pelo corpo? O que serão de nossos brinquedos secretos, escondidos sob as camisas, no armário? Que será da Veuve Clicquot esperando ser aberta e pervertida, em homenagem àquele reveillon?
O que será de nossa vida sem sabermos dos dois? Como ficará Portugal sem os seus filmes e o meu amor? Quais serão as nossas brigas? Seus esquecimentos serão perdoados, meus roncos silenciados e tudo perderá o sentido.
É por isso que hoje acordei revoltada. Eu odeio a nossa covardia, o seu silêncio, o meu orgulho. Eu não me preparei para viver sem você. Nosso banheiro não terá duas cubas, meus copos não sentirão as suas cachaças e meus chinelos não serão destruídos. Eu não terei cachorros. Somente você.
Os registros das nossas aventuras não resultarão num livro. Eu não reclamarei dos percalços no deserto, e não excomungarei o seu Defender. Dona Conceição não conhecerá seu sorriso salafrário e a ilha, sem energia elétrica e conforto, desaparecerá em nossa imaginação.
Hoje eu acordei com a certeza de que te perdoaria, no amanhã que não vai existir.
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