Arquivo paraabril, 2010

A poesia liberada de Vinícius de Moraes

Quarenta anos antes de entrar em domínio público, a obra do poetinha foi liberada pela família para a internet. Como é bom quem vive de amor…Ele deve estar brindando agora.São 15 livros digitalizados.

Baixe logo: http://www.brasiliana.usp.br/node/455

Estranhos

(obra de Joan Miró)

Rezo pelo amor. Peço por nós, seres humanos. Abro a torneira para escoar toda gota cinza.Trago o balde de separar mágoas. Rogo por você – para que um dia consiga. Agradeço o carinho sem amarra, sem presente e proximidade.

Rabisco o preto, coloco luz. Você é feito de forma. Não negue a mim.

Rezo por nós dois. Somos de argila e também porcelana. Peço pela amizade além do balde de mágoas. Oro pelo amor. A vida em P/B é cheia de cores suas. E assim será.

Vermelho entranhado é homem vazado. Sépia é você – artista. Taciturno.

Tenho de sobra um par de lentes. Daquelas de ver o mundo. Pego uma. A outra atiro em você. Isso é coisa pra ver a beleza. Divido a esperança de poesia entre nós.

Amanhã

(A dança, de Henry Matisse)

(mais um texto do fundo do baú: 2007 )

Nova Iorque, 17 de novembro de 2018.

Oi,

hoje acordei com saudade do amanhã que não vai existir. O que faremos do veleiro que nos levaria além das obrigações? Que sentido daremos aos dias estendidos, sem o nosso horizonte caiçara?

Hoje acordei assustada porque lembrei que não precisaremos mais correr estradas, ansiosos por um beijo, às duas da manhã. Já não seremos reféns da madrugada, muito menos do tráfego aéreo. Infelizmente seremos livres: haverá outras noites, outros cansaços, outras motivações.

Hoje acordei preocupada com os nossos netos, perdidos no passado, relembrando os nossos causos, na Praça da Matriz. Quem varrerá a poeira, e comentará a reforma da igreja? Nossa casa sem número ficará abandonada, numa ruela qualquer, sem direito ao amor e ao futuro. E apesar disso, a vida seguirá. Os carteiros chegarão e lembrarão, todos os dias, que a nossa casa não é real.

Os amigos não conhecerão a nossa livraria, não experimentarão o meu café. Você não terá mais o meu corpo para desenhar. Onde serão as suas exposições? Me diga o que fazer para preencher o sábado chuvoso, com você numa cidade e eu em outra.

Hoje acordei aflita sem os seus pés embolados nos meus. Quem entenderá que eles falam pelo corpo? O que serão de nossos brinquedos secretos, escondidos sob as camisas, no armário? Que será da Veuve Clicquot esperando ser aberta e pervertida, em homenagem àquele reveillon?

O que será de nossa vida sem sabermos dos dois? Como ficará Portugal sem os seus filmes e o meu amor? Quais serão as nossas brigas? Seus esquecimentos serão perdoados, meus roncos silenciados e tudo perderá o sentido.

É por isso que hoje acordei revoltada. Eu odeio a nossa covardia, o seu silêncio, o meu orgulho. Eu não me preparei para viver sem você. Nosso banheiro não terá duas cubas, meus copos não sentirão as suas cachaças e meus chinelos não serão destruídos. Eu não terei cachorros. Somente você.

Os registros das nossas aventuras não resultarão num livro. Eu não reclamarei dos percalços no deserto, e não excomungarei o seu Defender. Dona Conceição não conhecerá seu sorriso salafrário e a ilha, sem energia elétrica e conforto, desaparecerá em nossa imaginação.

Hoje eu acordei com a certeza de que te perdoaria, no amanhã que não vai existir.

Biblioteca na praia de Copacabana

É coisa do projeto Livro de Rua, do  Instituto Ciclos do Brasil. Domingo, dia 25/04,mil livros estarão disponíveis para todo mundo no posto 6, ao lado da estátua do Drummond. A iniciativa faz parte do Viradão Carioca.

É só pegar os livros e ler. Estão previstas apresentações de contadores de histórias também.

Boa pedida! Para saber mais sobre o projeto: http://www.livroderua.com.br/

Porque a vida é feita de um bom desenho…

by Jen Corace

by J. Corace

Resolvi compartilhar as ilustrações de Jean Corace, desconhecidas para mim até hoje, exatamente. Dica para guardar ao lado do Shaun Tan ( que eu falei em fevereiro).O dia a dia também merece traços poéticos.

Contente também com a repercussão do personagem Eusébio em portais de meio ambiente e defesa dos animais. Quem diria? A matéria que saiu no jornal O Dia, falando de educação e do potencial pedagógico do meu tucaninho mágico, deu uma alavancada nisso. Bueno.

Ah, o site da ilustradora sensacional é: www.jencorace.com

Saídas de emergência

(Shop Assistant and Customer, Paul Klee)

(outro conto lá do baú)

Alfavaquinha de cobra, fedegoso, oficial de sala, funcho, trançagem. Afrodisíaco é bete cheiroso e negamina pra quem quer dinheiro. Todo dia é a mesma coisa. Já decorei tudo de tanto ouvir. A barraca do Aquilino é a mais cheia. Eu ando de canto a canto, mas ninguém tem a manha dele. As madames gostam e voltam com um agrado. Ele é forte e usa blusa regata. Aproveita pra mostrar o músculo do braço na hora de carregar as sacolas das donas.

- Qual o problema de fazer um extra? – ele sempre pergunta.

Eu não sei. Minha mãe diz que umas coisas a gente só aprende depois de grande. A nossa feira é numa praça de Copacabana. Tem moça vestindo blazer preto e shortinho, empregada mandando na patroa e até velha maluca carregando uma mala e rezando de frente pro sol. Todo mundo vai de sapato maneiro. O Aquilino usa nike branco.

Meu ponto é embaixo da placa “Praça Edmundo Bittencourt”. Outro dia, eu tava esperando o ônibus e decidi: quero ser igual a ele. O Aquilino chegou e puxou papo com uma menina que tava do meu lado. Bonita, cabelo cacheado, gostosa. Ela perguntou o que ele fazia.

- Sou raizeiro – explicou, de peito estufado.

Ela tá amarradona. Vem sempre visitar ele na feira. As madames não gostaram muito. Nem o bolso dele. Eu tento brincar com as pessoas pra vender mais alho. Não adianta. Não consigo fazer igual ao Aquilino.  No final do dia, volto com a metade dos saquinhos na mochila. Já tentei falar pra minha mãe que é melhor vender limão, mas ela diz que alho é útil. E quatro cabeças só custam R$ 3,00. Quem não vai comprar?

Eu não entendo como a menina foi gostar dele. O cara é velho. Deve ter uns trinta anos. E o pior: vende as ervas só por R$ 2,00. Eu queria saber como ele comprou uma moto. Meu plano é colar nele e depois sumir pra outra feira. Não é justo o Aquilino sacar de folhas sozinho.

- Tem que estudar, ter boa memória…- vive repetindo para mim.

Ele acha que sou otário porque tenho onze anos. Duvido que ele saiba pra que serve cada planta daquela. Aposto que fala qualquer nome pras pessoas. Se eu fosse elas, não confiava. O Aquilino parece um preso com aquele cabelo raspado. Hoje, eu tava à toa com os alhos e reparei nos homens atrás dele na barraca.

- A coisa tá feia, não tem essa de sexo não.

Eu, hein.

Chuva colorida

Quem nunca viu um pingo amarelo? Ou verde? Ou azul. Muita criança vê. E mais até. São os adultos quem não conseguem. Quero dizer, alguns…

Criar, imaginar, inventar, aceitar e permitir foi ensinado junto com a chupeta. Infelizmente, uma galera grande perdeu esses verbos por aí. Caminham pela vida ao lado do cinza, ou melhor, do preto no branco. Deslocam a vida, mas o sentido das palavras? Jamais! Brincar com o possível é coisa inútil, inventar com a linguagem é para quem não tem tempo. O mundo deles não tem nem o charme do PB.

Ainda bem que chuva colorida é real para a galerinha. O guarda-chuva delas é mais feliz. Ler é fundamental para as crianças continuarem inventando o dia a dia e construírem um futuro de mais beleza. Garantia? Nenhuma. Mas quem está acostumado a beleza tende a procura-la vida afora.

Hoje é dia do Livro Infantil, data em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato – que dizia que ainda escreveria livros para as crianças morarem dentro deles.

Para as nossas chuvas serem cada vez mais rosas, douradas e laranjas uma dica boa de leitura:

“O diário de Pilar na Grécia”, da Flávia Lins e Silva.Ô moça boa de letra, de curiosidade e de invenção. Aposto que todos tem um pouquinho de Pilar, que vive a perguntar : “quanto tempo tem o tempo?”

Livro Falado

Bem bacana: site onde os deficientes visuais podem ter acesso a mais de 350 livros gravados. No time do Brasil, uns 280 autores. Manoel Bandeira, Jorge Amado, Ziraldo, Machado de Assis, Ana Maria Machado e mais uma lista enorme de gente boa.

A criadora do projeto é a moça Analu Palma, mestre em teatro pela UFRJ. A ABL é parceira. Além de facilitar o acesso a leitura, Analu quer contribuir para a qualificação de atores cegos.

O site é www.livrofalado.pro.br

Agora, quem quiser a gravação de um livro específico precisa enviar um e-mail para livrofalado@livrofalado.pro.br. A remessa do material é gratuita.

Eu adorei. Vamos divulgar?

Uma vida sem celular…

Começo nesse instante uma prova de resistência ou um processo de libertação. Vá saber…

Depois de perder o meu aparelho de celular pela segunda vez em uma semana, na praia, digo não a essa engenhoca maldita!

Vamos ver quanto tempo eu fico sem ele… Apostas?

beijo!

Descobrir novos autores pode virar lei!

*BRASILIA – A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei de autoria do deputado Marcelo Almeida (PMDB-PR) que institui concursos regionais em todo território nacional para a descoberta de novos autores e escritores. Esses concursos passarão a ser uma das atribuições do Poder Executivo para a difusão do livro dentro da Política Nacional do Livro.

Com a aprovação do projeto, o Poder Executivo também ficará responsável por promover concursos regionais para incentivar e descobrir novos autores. “A produção literária brasileira é riquíssima, mas são poucos os autores que conseguem viabilizar suas obras. Esses concursos servirão não apenas para a descoberta de novos talentos, mas também para dar visibilidade aos escritores iniciantes”, destacou o deputado.

*do JB online.

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