Arquivo parajunho, 2010

O encontro marcado

O texto mais bonito que já li foi ” A última crônica”, do Fernando Sabino. Quem puder leia. Sem dúvida, ele é um dos maiores. Mas eu nunca tinha lido “O encontro marcado”. Até ontem. Estamos nos acostumando um ao outro. Foi a primeira vez que um exemplar me deu alergia. É, é velho. Bastante. Por que não um novo? Porque eu quero o velho. Quero as suas lembranças, o toque, as descobertas (a alergia vai passar).

Enquanto isso,  a epígrafe – um trecho de carta de Hélio Pelegrino. A todos jovens, tolos, que pretendem ganhar-se a si mesmos.

O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com as suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então o trabalho do homem que merece o seu nome.

Seu nome

Tenho uma implicância sem motivo algum com Fabrício Corsaletti. Talvez porque acho que ele anda na moda, mas o que cara tem a ver com isso? Ou melhor, o que a sua literatura teria a ver com isso? Ela faz bem em dar de ombros para minhas tolices.

Por isso, fiz questão de digitar um texto foda dele. Prestem atenção aos detalhes, (égua, coelho, xícara, teleférico) as comparações que ele faz. Literatura de verdade é feita de detalhes como esses. Do livro ” Esquimó”.

se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma
égua daria a ela teria o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho no suspiro final balbuciarei o seu nome

se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome

se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome

Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo porque Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome

se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome

se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem mãe em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem filha em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome

quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome

(e continua…)

Blog do Saramago

(Miró)

De vez em nunca, eu lia o blog do Saramago (ou diria da Fundação José Saramago?). Pois bem, para quem quiser virar e revirar tem coisas bacanas. Não sou a maior leitora do português, mas ele merece reverência.  Tão miserável e pobre na infância, e Nobel de Literatura.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008:

“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma”.

Caderno do Saramago:

http://caderno.josesaramago.org/

Flip-se na oficina

Para quem curte o trabalho do peruano Julio Villanueva Chang, está aberta a inscrição para a oficina que ele vai coordenar durante a FLIP. Quem não está associando o nome a pessoa, ele é  o criador  da revista cultura Etiqueta Negra. Super boa!

O trabalho da oficina este ano será feito em cima do tema perfis – uma referência da conversa com ninguém menos que Gay Talese na Festa Literária de 2009. O mais famoso perfil “Sinatra está resfriado”, escrito por Talese,  vai servir de mote para as aulas do peruano.

São três dias de conversa e escrita. Sempre em espanhol, claro. Em 2010, a seleção será feita pelos currículos dos interessados e um texto jornalístico.

Quem quiser pode enviar isso tudo até o dia 25/06 para o e-mail: oficinaliteraria@flip.org.br

São 30 vagas e os escolhidos deverão pagar uma taxa de R$ 100,00 mediante orientação da organização do evento. As aulas são nos dias:

05/08, quinta: 13h30-15h
06/08, sexta: 13h30-15h
07/08, sábado: 13h30-15h

Coisas de Ana

(Roots - Frida Kahlo)

( rasbiscos com Marcelino Freire)

Ana era de ondas. Bartolomeu de cinema. Ela nasceu em areia. São vinte e cinco anos de manobras; histórias até. A moça é leitora daquelas. Biquini? Não, não. Somente acompanhada de Bartô. Bom mesmo é vida feita de neoprene. Quarta-feira, sol, dia curto: amigos, frango de padaria, Dostoiévski. Avenida Atlântica louca.Ônibus 132 respingado de cachaça. Os olhos foram ao céu, a prancha à esquerda.

Mar-plateia.

Palavras de cabeceira


( A corrida - Picasso)

Taí o que todo mundo que escreve precisa comprar logo: a nova edição do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa. A obra de Francisco Ferreira dos Santos volta a circular pela Lexicon Editora Digital. O dicionário é cultuado por ninguém menos que Chico Buarque. E por que é tão especial? Porque ele vem organizado por temas e tem mais de 100 mil entradas.

Encontre , ou perca, os adjetivos, substantivos, verbos, locuções, de acordo com o assunto que você está escrevendo. É uma ajudinha boa quando a ideia não vem!

Ron Carter para os cariocas

Essa é para quem curte jazz.  Ron Carter fazia parte do quinteto de Miles Davis e vai se apresentar no CCBB, amanhã, dia 08. O preço? R$6,00. O cara de 73 anos é um puta contrabaixista. Vale muito passar por lá e conferir.

O show faz parte da programação da série “Alma brasileira”, que vai até o dia 29/06. A bilheteria abre às 10h e a apresentação é às 19h.

Quer ser interessante? Então vá ler um bom livro!

Pérola da minha dermatologista para determinadas mulheres que frequentam o seu consultório. Impossível não registrar. Pena que nem todos sabem o que é um bom livro…

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